Notícia
Analice Gaspar Garcia
- Publicado em
25-09-2026
08:00
Pesquisadoras formam rede para ampliar presença feminina na Computação
À primeira vista, a 1ª Escola de Processamento de Linguagem Natural (PLN) parece mais um encontro acadêmico na área da Computação. Pessoas circulando com crachás no pescoço, computadores abertos sobre as mesas, apresentações projetadas no auditório e, pelos corredores, conversas repletas de termos técnicos se misturam ao movimento de estudantes, docentes e demais integrantes da comunidade acadêmica. Nessa movimentação, diferentes histórias e perspectivas se encontram e, entre elas, as de mulheres que, em São Carlos, vêm construindo suas trajetórias na intersecção entre a Computação e o Processamento de Linguagem Natural.
No centro do auditório, está Helena Caseli, docente no Departamento de Computação (DC) da UFSCar, desde 2008, e uma das coordenadoras do evento. Além de pesquisadora, Helena também se define como uma "professora que trabalha com tradução automática e aprendizado multimodal; mãe de duas futuras cientistas e apaixonada por códigos" - paixão que, segundo ela, vai muito além da programação, estendendo-se também ao crochê e ao piano clássico. Na UFSCar, ela integra a cátedra "Computação Inteligente Centrada no Humano", vinculada ao Instituto de Estudos Avançados e Estratégicos (IEAE), iniciativa que aproxima Inteligência Artificial (IA) e Interação Humano-Computador (IHC) para desenvolver tecnologias mais éticas e inclusivas.
De forma descontraída e bastante receptiva, Helena dá início às atividades da 1ª Escola de PLN realizando sua audiodescrição: "mulher branca, de cabelos castanhos escuros, usando óculos e vestindo uma camiseta da Brasileiras em PLN", à qual ela aponta para explicar a sigla, que se refere ao campo da Computação dedicado ao desenvolvimento de métodos e tecnologias para possibilitar que computadores processem, interpretem e produzam - simulando - a linguagem humana. É a área por trás de vários recursos que fazem parte do nosso cotidiano, como tradutores automáticos, assistentes virtuais (como a Alexa e a Siri), sistemas de reconhecimento de fala e ferramentas capazes de gerar ou resumir textos.
PLN também é o campo que tem contribuído para o desenvolvimento da IA, mais especificamente de modelos de IA generativa (chatbots, como ChatGPT, Gemini e Claude) capazes de produzir textos e responder perguntas, que dependem de técnicas de processamento de linguagem para aprender padrões em grandes volumes de dados e gerar respostas em linguagem natural. É neste universo que Helena constrói sua trajetória acadêmica.
Entre a pesquisa, a docência, os hobbies e os cuidados com a família, ela concretizou uma carreira que articula o avanço da Computação à formação de novas gerações de cientistas, com especial atenção às mulheres. E é isso que marca a sua participação na co-fundação do grupo "Brasileiras em Processamento de Linguagem Natural" (BPLN), coletivo organizador do evento, que tem o propósito de aproximar e dar visibilidade às mulheres brasileiras que atuam ou têm interesse nesse campo.
Brasileiras em PLN
A criação do BPLN ocorreu a partir de uma experiência vivenciada por Helena na pandemia de Covid-19, após sua participação em um workshop da 58ª Reunião Anual da Associação de Linguística Computacional. "A partir de uma palestra online, uma brasileira que mora na Alemanha, a Brielen [Madureira], entrou em contato comigo. Ela perguntou se existia um grupo de mulheres brasileiras trabalhando com PLN, e eu falei que não. Na sequência, ela perguntou o que eu achava da ideia de criarmos um, o que me pareceu ótimo. Assim nasceu a BPLN", relembra.
Hoje, cinco anos depois, o grupo conta com mais de 300 pessoas. São mulheres que atuam em universidades e no mercado, no Brasil e no exterior, como estudantes, docentes, pesquisadoras e profissionais envolvidas com a educação e o desenvolvimento de tecnologias. O coletivo oferece um espaço para o aprendizado, a colaboração e o fortalecimento da participação feminina na área.
A preocupação com a presença feminina na Ciência acompanha a trajetória de Helena. Na Computação, ela observa que as desigualdades podem aparecer desde o início e se prolongar ao longo da carreira. Essa realidade, segundo ela, exige das mulheres não apenas competência técnica, mas também estratégias para lidar com ambientes nos quais ainda são minoria. "A Computação é um campo que tem predominância masculina. Portanto, tem algumas coisas que a gente precisa driblar, ter jogo de cintura para poder lidar. E, para as nossas colegas de Letras e Linguística, é ainda pior, porque às vezes elas trabalham com um time completamente de Computação, em que todos são homens, e a única mulher é ela", relata Helena.
É neste contexto que iniciativas como a BPLN assumem um papel que ultrapassa a produção científica. Ao promover encontros, palestras, discussões e oportunidades de interação, o coletivo cria possibilidades para que mulheres, em diferentes momentos da carreira, compartilhem experiências, conectem-se umas com as outras e tenham acesso a referências que nem sempre estão disponíveis em seus ambientes de trabalho.
Em meio às universidades e centros de pesquisa que movimentam a Ciência em São Carlos, outras mulheres, que junto com Helena integram o grupo, têm construído suas trajetórias no PLN. São pesquisadoras com formações, experiências e atuações distintas, que ajudam a dar rosto e voz à presença feminina em uma área cada vez mais presente no desenvolvimento tecnológico.
Dar rosto e voz a essas trajetórias é, de certa forma, justamente o propósito por trás da 1ª Escola de PLN, evento realizado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP), entre os dias 11 e 13 de agosto de 2026, com uma programação que contou com a participação de 120 estudantes e profissionais. A Escola tem como objetivo fomentar pesquisas e aplicações voltadas ao processamento da língua falada no Brasil para o desenvolvimento de tecnologias que dialoguem com as particularidades do Português brasileiro.
Encontro de gerações
Mas o auditório também foi espaço de encontros entre gerações. Estudantes interagiram com professoras em diferentes momentos de suas carreiras e trocaram experiências sobre o que significa fazer pesquisa em PLN no Brasil. Uma referência, integrante do BPLN, é Maria das Graças Volpe Nunes, ou simplesmente Graça Nunes. Graduada pela UFSCar em 1980, na terceira turma de Ciência da Computação, mestre pela USP e doutora pela PUC-Rio, é professora aposentada do ICMC.
Graça segue ativa na pesquisa, no Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), que ela ajudou a fundar em 1993 e é um dos principais grupos de pesquisa em PLN do País, responsável pelo primeiro revisor gramatical do Português brasileiro (mais tarde licenciado pela Microsoft para uso no Word) e por outros recursos pioneiros.
O NILC nasceu de uma demanda de uma empresa de Ribeirão Preto, prestadora de serviços para a Itautec/Banco Itaú, que buscava um revisor gramatical de Português, algo inexistente no Brasil até então. O financiamento recebido permitiu estruturar o Núcleo, que desde o início reuniu linguistas e programadores de diferentes áreas do PLN.
Foi nele que a trajetória dessas mulheres iniciou. Assim como Helena, Eloize Rossi Marques Seno, docente no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus São Carlos, teve Graça como sua orientadora. Formada em Ciência da Computação, iniciou na pesquisa ainda na graduação, com projetos de IA, área pela qual já nutria interesse. Foi na pós-graduação, em São Carlos, que teve contato com o NILC, onde desenvolveu um projeto de sumarização automática de textos. Concluído o mestrado na UFSCar, seguiu para o doutorado na USP, onde continuou os trabalhos sob orientação de Graça.
No IFSP desde 2011, Eloize direciona sua atuação na pesquisa para a iniciação científica, em projetos nas linhas de sumarização e geração automática de textos, paráfrases, detecção de discurso de ódio e análise de sentimentos em domínios que vão da política à gastronomia. Ela mantém colaboração com Helena, com quem desenvolve pesquisas no Laboratório de Linguística e Inteligência Computacional (LALIC) da UFSCar e divide atividades no BPLN.
É também no NILC que se formaram outras pesquisadoras, como Amanda Pontes Rassi, que fez o caminho oposto - não da Computação em direção à língua, mas da Linguística em direção à máquina -, e Roseli Aparecida Francelin Romero, que tem sua trajetória marcada no campo pela IA e pela robótica, ambas palestrantes na 1ª Escola de PLN.
Amanda iniciou os estudos na Universidade Federal de Goiás (UFG), no curso de Letras, com bacharelado em Linguística. No mestrado, estudou Lexicografia e Lexicologia, também na UFG. Como docente, atuou na Universidade Estadual de Goiás, no curso de Letras, além de lecionar no ensino Fundamental e no Médio e em cursos preparatórios para o vestibular. Foi para fazer o doutorado em Linguagem Humana e Tecnologias na UFSCar que se mudou para São Carlos.
Antes mesmo de ingressar, viveu um episódio curioso: ao ouvir falar da sigla PLN, associou-a por engano à Programação Neurolinguística (PNL) e chegou a ler três livros sobre o tema até perceber o equívoco, já às vésperas de se inscrever no processo seletivo, que seda inscrição. Foi no doutorado que teve contato com o NILC, onde participou de projetos envolvendo tradução automática, sumarização e classificação textual.
Sua atuação profissional inclui passagens pelo Google, onde atuou no desenvolvimento do assistente virtual Google (o então "OK Google"), e pela Apple, testando a assistente Siri em tarefas de reconhecimento e síntese de voz. Desde 2018, atua na área educacional, e atualmente é coordenadora pedagógica na Redação Nota 1000, da Cogna Educação, empresa responsável por serviços de correção automática de redação. Amanda credita sua motivação ao PLN à possibilidade de aplicar, na prática, as nuances mais sutis da língua - ambiguidade, ironia, sarcasmo, contexto - para que sistemas de comunicação sintéticos consigam simular a comunicação humana. Mesmo fora da universidade há quase 10 anos, ela mantém vínculo estreito com a pesquisa acadêmica por meio do BPLN, cuja proposta reconhece ter aberto portas que talvez permanecessem fechadas para quem está no mercado.
No caso de Roseli, docente no Departamento de Computação do ICMC, foi a formação em Matemática, com ênfase em Computação, no ICMC, que abriu caminho para uma trajetória dedicada à pesquisa em IA e Interação Humano-Computador. Durante o doutorado em Engenharia Elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roseli especializou-se em redes neurais artificiais, aprofundando seu interesse pela IA. Sua carreira ganhou projeção durante o pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon (EUA), onde desenvolveu pesquisas em IA aplicada à robótica social. Desde então, Roseli coordena o Laboratório de Aprendizado de Robôs (LAR), no ICMC, onde lidera projetos que integram aprendizado de máquina, visão computacional e tomada de decisão.
Depois de acompanhar décadas de transformações na Computação e no aprendizado de máquina, Roseli demonstra incômodo com a permanência de barreiras que ainda dificultam a participação e o avanço das mulheres no setor. "É preciso ter muita coragem para chegar e fazer tudo que a gente fez", afirma, referindo-se à trajetória construída na pesquisa e na docência. Para ela, permanecer nesses espaços exige firmeza e persistência para demonstrar, na prática, como as mulheres podem produzir conhecimento, propor ideias e transformar a tecnologia.
A realização da 1ª Escola de PLN representa a concretização de uma iniciativa construída coletivamente por essas mulheres para reunir conhecimento, pessoas e novas possibilidades. A proposta é que a iniciativa aconteça anualmente, de forma itinerante, percorrendo diferentes regiões do Brasil e aproximando o PLN de novos públicos.
As pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos, as experiências compartilhadas e as redes de colaboração que foram formadas colocam as pesquisas em PLN desenvolvidas nas instituições de ensino e pesquisa de São Carlos em evidência e destaque nacional.
É nesse contexto que a colaboração entre mulheres, por meio de iniciativas como o BPLN, ganha ainda mais importância. Para uma geração que precisou conquistar espaços, essa colaboração representa também uma oportunidade de abrir caminhos para as próximas gerações.
No centro do auditório, está Helena Caseli, docente no Departamento de Computação (DC) da UFSCar, desde 2008, e uma das coordenadoras do evento. Além de pesquisadora, Helena também se define como uma "professora que trabalha com tradução automática e aprendizado multimodal; mãe de duas futuras cientistas e apaixonada por códigos" - paixão que, segundo ela, vai muito além da programação, estendendo-se também ao crochê e ao piano clássico. Na UFSCar, ela integra a cátedra "Computação Inteligente Centrada no Humano", vinculada ao Instituto de Estudos Avançados e Estratégicos (IEAE), iniciativa que aproxima Inteligência Artificial (IA) e Interação Humano-Computador (IHC) para desenvolver tecnologias mais éticas e inclusivas.
De forma descontraída e bastante receptiva, Helena dá início às atividades da 1ª Escola de PLN realizando sua audiodescrição: "mulher branca, de cabelos castanhos escuros, usando óculos e vestindo uma camiseta da Brasileiras em PLN", à qual ela aponta para explicar a sigla, que se refere ao campo da Computação dedicado ao desenvolvimento de métodos e tecnologias para possibilitar que computadores processem, interpretem e produzam - simulando - a linguagem humana. É a área por trás de vários recursos que fazem parte do nosso cotidiano, como tradutores automáticos, assistentes virtuais (como a Alexa e a Siri), sistemas de reconhecimento de fala e ferramentas capazes de gerar ou resumir textos.
PLN também é o campo que tem contribuído para o desenvolvimento da IA, mais especificamente de modelos de IA generativa (chatbots, como ChatGPT, Gemini e Claude) capazes de produzir textos e responder perguntas, que dependem de técnicas de processamento de linguagem para aprender padrões em grandes volumes de dados e gerar respostas em linguagem natural. É neste universo que Helena constrói sua trajetória acadêmica.
Entre a pesquisa, a docência, os hobbies e os cuidados com a família, ela concretizou uma carreira que articula o avanço da Computação à formação de novas gerações de cientistas, com especial atenção às mulheres. E é isso que marca a sua participação na co-fundação do grupo "Brasileiras em Processamento de Linguagem Natural" (BPLN), coletivo organizador do evento, que tem o propósito de aproximar e dar visibilidade às mulheres brasileiras que atuam ou têm interesse nesse campo.
Brasileiras em PLN
A criação do BPLN ocorreu a partir de uma experiência vivenciada por Helena na pandemia de Covid-19, após sua participação em um workshop da 58ª Reunião Anual da Associação de Linguística Computacional. "A partir de uma palestra online, uma brasileira que mora na Alemanha, a Brielen [Madureira], entrou em contato comigo. Ela perguntou se existia um grupo de mulheres brasileiras trabalhando com PLN, e eu falei que não. Na sequência, ela perguntou o que eu achava da ideia de criarmos um, o que me pareceu ótimo. Assim nasceu a BPLN", relembra.
Hoje, cinco anos depois, o grupo conta com mais de 300 pessoas. São mulheres que atuam em universidades e no mercado, no Brasil e no exterior, como estudantes, docentes, pesquisadoras e profissionais envolvidas com a educação e o desenvolvimento de tecnologias. O coletivo oferece um espaço para o aprendizado, a colaboração e o fortalecimento da participação feminina na área.
A preocupação com a presença feminina na Ciência acompanha a trajetória de Helena. Na Computação, ela observa que as desigualdades podem aparecer desde o início e se prolongar ao longo da carreira. Essa realidade, segundo ela, exige das mulheres não apenas competência técnica, mas também estratégias para lidar com ambientes nos quais ainda são minoria. "A Computação é um campo que tem predominância masculina. Portanto, tem algumas coisas que a gente precisa driblar, ter jogo de cintura para poder lidar. E, para as nossas colegas de Letras e Linguística, é ainda pior, porque às vezes elas trabalham com um time completamente de Computação, em que todos são homens, e a única mulher é ela", relata Helena.
É neste contexto que iniciativas como a BPLN assumem um papel que ultrapassa a produção científica. Ao promover encontros, palestras, discussões e oportunidades de interação, o coletivo cria possibilidades para que mulheres, em diferentes momentos da carreira, compartilhem experiências, conectem-se umas com as outras e tenham acesso a referências que nem sempre estão disponíveis em seus ambientes de trabalho.
Em meio às universidades e centros de pesquisa que movimentam a Ciência em São Carlos, outras mulheres, que junto com Helena integram o grupo, têm construído suas trajetórias no PLN. São pesquisadoras com formações, experiências e atuações distintas, que ajudam a dar rosto e voz à presença feminina em uma área cada vez mais presente no desenvolvimento tecnológico.
Dar rosto e voz a essas trajetórias é, de certa forma, justamente o propósito por trás da 1ª Escola de PLN, evento realizado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP), entre os dias 11 e 13 de agosto de 2026, com uma programação que contou com a participação de 120 estudantes e profissionais. A Escola tem como objetivo fomentar pesquisas e aplicações voltadas ao processamento da língua falada no Brasil para o desenvolvimento de tecnologias que dialoguem com as particularidades do Português brasileiro.
Encontro de gerações
Mas o auditório também foi espaço de encontros entre gerações. Estudantes interagiram com professoras em diferentes momentos de suas carreiras e trocaram experiências sobre o que significa fazer pesquisa em PLN no Brasil. Uma referência, integrante do BPLN, é Maria das Graças Volpe Nunes, ou simplesmente Graça Nunes. Graduada pela UFSCar em 1980, na terceira turma de Ciência da Computação, mestre pela USP e doutora pela PUC-Rio, é professora aposentada do ICMC.
Graça segue ativa na pesquisa, no Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), que ela ajudou a fundar em 1993 e é um dos principais grupos de pesquisa em PLN do País, responsável pelo primeiro revisor gramatical do Português brasileiro (mais tarde licenciado pela Microsoft para uso no Word) e por outros recursos pioneiros.
O NILC nasceu de uma demanda de uma empresa de Ribeirão Preto, prestadora de serviços para a Itautec/Banco Itaú, que buscava um revisor gramatical de Português, algo inexistente no Brasil até então. O financiamento recebido permitiu estruturar o Núcleo, que desde o início reuniu linguistas e programadores de diferentes áreas do PLN.
Foi nele que a trajetória dessas mulheres iniciou. Assim como Helena, Eloize Rossi Marques Seno, docente no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus São Carlos, teve Graça como sua orientadora. Formada em Ciência da Computação, iniciou na pesquisa ainda na graduação, com projetos de IA, área pela qual já nutria interesse. Foi na pós-graduação, em São Carlos, que teve contato com o NILC, onde desenvolveu um projeto de sumarização automática de textos. Concluído o mestrado na UFSCar, seguiu para o doutorado na USP, onde continuou os trabalhos sob orientação de Graça.
No IFSP desde 2011, Eloize direciona sua atuação na pesquisa para a iniciação científica, em projetos nas linhas de sumarização e geração automática de textos, paráfrases, detecção de discurso de ódio e análise de sentimentos em domínios que vão da política à gastronomia. Ela mantém colaboração com Helena, com quem desenvolve pesquisas no Laboratório de Linguística e Inteligência Computacional (LALIC) da UFSCar e divide atividades no BPLN.
É também no NILC que se formaram outras pesquisadoras, como Amanda Pontes Rassi, que fez o caminho oposto - não da Computação em direção à língua, mas da Linguística em direção à máquina -, e Roseli Aparecida Francelin Romero, que tem sua trajetória marcada no campo pela IA e pela robótica, ambas palestrantes na 1ª Escola de PLN.
Amanda iniciou os estudos na Universidade Federal de Goiás (UFG), no curso de Letras, com bacharelado em Linguística. No mestrado, estudou Lexicografia e Lexicologia, também na UFG. Como docente, atuou na Universidade Estadual de Goiás, no curso de Letras, além de lecionar no ensino Fundamental e no Médio e em cursos preparatórios para o vestibular. Foi para fazer o doutorado em Linguagem Humana e Tecnologias na UFSCar que se mudou para São Carlos.
Antes mesmo de ingressar, viveu um episódio curioso: ao ouvir falar da sigla PLN, associou-a por engano à Programação Neurolinguística (PNL) e chegou a ler três livros sobre o tema até perceber o equívoco, já às vésperas de se inscrever no processo seletivo, que seda inscrição. Foi no doutorado que teve contato com o NILC, onde participou de projetos envolvendo tradução automática, sumarização e classificação textual.
Sua atuação profissional inclui passagens pelo Google, onde atuou no desenvolvimento do assistente virtual Google (o então "OK Google"), e pela Apple, testando a assistente Siri em tarefas de reconhecimento e síntese de voz. Desde 2018, atua na área educacional, e atualmente é coordenadora pedagógica na Redação Nota 1000, da Cogna Educação, empresa responsável por serviços de correção automática de redação. Amanda credita sua motivação ao PLN à possibilidade de aplicar, na prática, as nuances mais sutis da língua - ambiguidade, ironia, sarcasmo, contexto - para que sistemas de comunicação sintéticos consigam simular a comunicação humana. Mesmo fora da universidade há quase 10 anos, ela mantém vínculo estreito com a pesquisa acadêmica por meio do BPLN, cuja proposta reconhece ter aberto portas que talvez permanecessem fechadas para quem está no mercado.
No caso de Roseli, docente no Departamento de Computação do ICMC, foi a formação em Matemática, com ênfase em Computação, no ICMC, que abriu caminho para uma trajetória dedicada à pesquisa em IA e Interação Humano-Computador. Durante o doutorado em Engenharia Elétrica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roseli especializou-se em redes neurais artificiais, aprofundando seu interesse pela IA. Sua carreira ganhou projeção durante o pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon (EUA), onde desenvolveu pesquisas em IA aplicada à robótica social. Desde então, Roseli coordena o Laboratório de Aprendizado de Robôs (LAR), no ICMC, onde lidera projetos que integram aprendizado de máquina, visão computacional e tomada de decisão.
Depois de acompanhar décadas de transformações na Computação e no aprendizado de máquina, Roseli demonstra incômodo com a permanência de barreiras que ainda dificultam a participação e o avanço das mulheres no setor. "É preciso ter muita coragem para chegar e fazer tudo que a gente fez", afirma, referindo-se à trajetória construída na pesquisa e na docência. Para ela, permanecer nesses espaços exige firmeza e persistência para demonstrar, na prática, como as mulheres podem produzir conhecimento, propor ideias e transformar a tecnologia.
A realização da 1ª Escola de PLN representa a concretização de uma iniciativa construída coletivamente por essas mulheres para reunir conhecimento, pessoas e novas possibilidades. A proposta é que a iniciativa aconteça anualmente, de forma itinerante, percorrendo diferentes regiões do Brasil e aproximando o PLN de novos públicos.
As pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos, as experiências compartilhadas e as redes de colaboração que foram formadas colocam as pesquisas em PLN desenvolvidas nas instituições de ensino e pesquisa de São Carlos em evidência e destaque nacional.
É nesse contexto que a colaboração entre mulheres, por meio de iniciativas como o BPLN, ganha ainda mais importância. Para uma geração que precisou conquistar espaços, essa colaboração representa também uma oportunidade de abrir caminhos para as próximas gerações.