Notícia

Gisele Bicaletto - Publicado em 10-02-2026 15:00
Uso do Tamiflu reduz mortalidade em idosos hospitalizados com influenza
Pesquisa utilizou dados de mais de 8 mil pacientes idosos canadenses (Foto: Pexels)
Pesquisa utilizou dados de mais de 8 mil pacientes idosos canadenses (Foto: Pexels)

O uso do antiviral oseltamivir, mais conhecido como Tamiflu, em idosos hospitalizados com influenza reduziu o risco de mortalidade desses pacientes, mesmo quando administrado após 48 horas da internação. Essa é a conclusão de uma pesquisa conduzida pelo professor Henrique Pott, do Departamento de Medicina (DMed) da UFSCar, realizada em colaboração com o Departamento de Medicina da Dalhousie University (Canadá). O estudo foi selecionado como um dos melhores artigos publicados em 2025 pelas revistas da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas (IDSA). 

O oseltamivir é recomendado para o tratamento de adultos hospitalizados com influenza, mas ainda existe, na prática clínica, certa hesitação em iniciar o antiviral quando o diagnóstico ocorre de forma tardia. "Essa hesitação está relacionada, em parte, à percepção de que o benefício do tratamento estaria restrito a uma janela terapêutica limitada. Os resultados do estudo contribuem para esclarecer esse ponto, ao demonstrarem que, em idosos hospitalizados, o efeito protetor do antiviral se mantém mesmo quando iniciado após 48 horas, com impacto relevante na redução da mortalidade", explica Pott.

A pesquisa coletou dados sobre doenças respiratórias graves em cinco províncias canadenses durante as temporadas de influenza de 2012 a 2019. A análise foi baseada em dados provenientes de sistemas de vigilância e bases administrativas de saúde do Canadá, que integram informações clínicas, laboratoriais e de desfechos hospitalares. Foram incluídos 8.135 pacientes, com 65 anos ou mais, acompanhados quanto à evolução clínica e à ocorrência de óbito em até 30 dias após a internação.

Resultados
A análise mostrou que aproximadamente 3/4 dos pacientes receberam oseltamivir, enquanto uma parcela expressiva não foi tratada. Entre os que utilizaram o antiviral, observou-se uma redução de cerca de 18% no risco de óbito em até 30 dias. O benefício foi mais evidente nos casos de influenza A. Para influenza B, não houve associação estatisticamente significativa com redução da mortalidade, o que pode ser explicado pelo menor número de casos desse subtipo na amostra e por diferenças conhecidas no comportamento biológico do vírus, fatores que limitam o poder estatístico para detectar efeitos nesse grupo específico.

"Esses achados são particularmente relevantes porque idosos, frequentemente, apresentam manifestações clínicas atípicas de influenza, o que pode atrasar o reconhecimento da infecção e o início do tratamento. Além disso, trata-se de uma população com maior carga de comorbidades e maior risco de evolução desfavorável, o que torna o impacto potencial do tratamento antiviral ainda mais significativo do ponto de vista clínico", reforça o docente da UFSCar quanto à importância da pesquisa.

De acordo com ele, o estudo também contribui para preencher uma lacuna importante da literatura. "Idosos costumam estar sub-representados em ensaios clínicos, e grande parte das evidências sobre antivirais deriva de populações mais jovens. Ao analisar um grande corte populacional de idosos hospitalizados, a pesquisa oferece dados consistentes sobre a efetividade do oseltamivir justamente no grupo com maior risco de desfechos grave", destaca.

Pott aponta que, do ponto de vista da aplicabilidade, os resultados da pesquisa são plenamente transponíveis para o Brasil. O perfil clínico dos pacientes analisados é semelhante ao observado no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, assim como o manejo hospitalar da influenza e a indicação do oseltamivir como antiviral de primeira linha. As diretrizes brasileiras também reconhecem os idosos como grupo prioritário para tratamento antiviral, inclusive quando o início dos sintomas ocorreu há mais de 48 horas, o que torna os achados diretamente relevantes para a prática clínica nacional", pontua.

Por fim, o professor analisa que, em conjunto, os achados reforçam que o oseltamivir permanece uma ferramenta central no manejo da influenza em idosos hospitalizados. "A demonstração de redução de mortalidade, inclusive fora da janela terapêutica tradicional, sustenta uma abordagem mais ativa na prescrição do antiviral e evidencia a importância do reconhecimento precoce da doença nesse grupo de alto risco".

O reconhecimento da importância dos resultados, a partir da seleção do artigo pelos periódicos da IDSA, foi concedido pelos editores-chefes das revistas Clinical Infectious Diseases, The Journal of Infectious Diseases e Open Forum Infectious Diseases, que destacaram a pesquisa como uma contribuição significativa para a área de Infectologia. Segundo eles, os trabalhos selecionados representam pesquisas meticulosas e inovadoras, que enriquecem tanto as publicações quanto o campo científico como um todo. Para Henrique Pott, autor principal, "esse destaque evidencia a excelência científica e o impacto internacional da pesquisa conduzida na UFSCar, reforçando o prestígio do Departamento de Medicina e de seus colaboradores no cenário global de Infectologia", celebra.

A relação dos artigos selecionados está neste link, que dá acesso à íntegra dos textos.