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Denise Britto - Publicado em 29-08-2025 08:00
Estudantes indígenas da UFSCar participam de encontro em Manaus
Estudantes indígenas da UFSCar durante Encontro em Manaus (Foto: Acervo pessoal)
Estudantes indígenas da UFSCar durante Encontro em Manaus (Foto: Acervo pessoal)
Uma delegação com 16 estudantes indígenas da UFSCar participou do XII Encontro Nacional de Estudantes Indígenas (ENEI), um importante evento que apresenta, anualmente, as pesquisas desenvolvidas por estudantes e pesquisadores indígenas nas diferentes regiões do País, em todas as áreas do conhecimento.

Este ano, o ENEI foi realizado em Manaus (AM), de 6 a 8 de agosto. No evento, os estudantes da UFSCar apresentaram trabalhos científicos e também falaram da atuação dos Programas de Educação Tutorial (PET) voltados a estudantes indígenas e de grupos de extensão e pesquisa dos quais fazem parte. No total, foram apresentados 21 trabalhos, sendo 20 de forma presencial e um trabalho apresentado de forma remota.

O professor Márcio Rogério Silva, do Centro de Ciências da Natureza (CCN) do Campus Lagoa do Sino da UFSCar, também esteve presente no ENEI 2025 e acompanhou a programação. Ele destacou a importância de professores indígenas e pós-graduandos apresentando suas trajetórias, suas pesquisas e atividades de extensão para estudantes indígenas de graduação. Um exemplo dessa trajetória relatada pelo professor foi o caso de Eliel Benites, "um indígena que fez graduação em licenciatura indígena, mestrado e doutorado em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); tornou-se professor efetivo concursado pela UFGD, primeiro diretor de Faculdade Intercultural Indígena da UFGD e agora ocupa uma posição na área de Registro de Memórias do Ministério dos Povos Indígenas, encorajando os estudantes indígenas a ocuparem espaços que antes não eram a eles direcionados". Para o docente da UFSCar, "essas trajetórias empoderam os estudantes a quererem mais para o futuro deles", avalia. "Na minha leitura, de tudo, o mais potente é isso! Ajuda a dar força para não desistir, porque é muito difícil pra eles estar longe, a distância cultural, a falta de aderência das aulas muitas vezes à sua realidade".

O ENEI tornou-se um espaço para o movimento de luta e conquistas para os estudantes indígenas brasileiros, aponta a professora Luzia Sigoli Fernandes Costa, Coordenadora de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. "Neste evento, a UFSCar tem uma participação diferenciada pelo seu pioneirismo em sediar a sua primeira edição, em 2013. Desde então, com o apoio do Centro de Culturas Indígenas (CCI), o ENEI se constitui em um marco histórico e abriu muitos caminhos para os demais encontros que vêm ocorrendo em diferentes regiões brasileiras", explica Luzia Costa.

Edição 2025
Este ano, a XII edição do ENEI teve como tema "Direitos Humanos e Justiça Climática: as ciências indígenas como rede de trocas para o equilíbrio humano no mundo" e contou com centenas de estudantes indígenas, de todo o Brasil, para fortalecer o movimento e discutir as suas lutas por educação, por direitos à educação, ao território, entre outros temas de luta. Saiba mais no perfil do ENEI no Instagram (@enei_oficial).

Relatos
Jeamic Held Pereira de Almeida, do povo Kokama, é graduanda do curso de Engenharia Agronômica do Campus Lagoa do Sino da UFSCar e atual coordenadora do CCI-Ls. Ela esteve no Encontro pela terceira vez. Na ocasião, ela também representou o Centro de Extensão e Pesquisa em Água e Efluentes (Cepae), apresentando o trabalho "Sistemas descentralizados e participação comunitária em soluções hídricas para povos indígenas". "A programação em si é bem corrida", conta a estudante, "mas é o momento no qual participamos de rodas de conversas e mesas que apresentam propostas voltadas às políticas públicas voltadas para nós, povos indígenas". Para ela, a presença dos estudantes indígenas e demais apoiadores é muito importante nesses eventos, "pois de fato precisamos ocupar espaços como esses para avançarmos em direção ao que temos direitos".

Taylane da Silva Gomes, do povo Tupinikim do Espírito Santo, é estudante de graduação em Ciências Sociais da UFSCar e atual coordenadora do CCI do Campus São Carlos. Ela também integrou a delegação da UFSCar em Manaus. "Estar no ENEI foi não só uma satisfação pessoal muito grande, mas também uma satisfação coletiva. Tivemos ainda a colaboração valiosa de estudantes que já moram em Manaus e nos ajudaram a nos localizar na cidade, compartilharam sua culinária e nos apresentaram um pouco de suas vivências locais".

Entre as pautas e mesas - todas importantes na visão da estudante -, ela ressalta o contato com o Centro de Medicina Bahserikowi, que "trouxe uma reflexão fundamental ao desconstruir a ideia da medicina ocidental como única forma válida de cuidado, mostrando a importância de que nossos modos de vida, saberes e práticas de cura sejam reconhecidos e valorizados também". Outra atividade marcante, segundo a estudante indígena da UFSCar, foi a Mesa 8 com o tema "Movimento estudantil indígena e políticas afirmativas", na qual "pudemos debater sobre conquistas, desafios e estratégias de resistência para garantir a permanência indígena nas universidades e ampliar os espaços de decisão política dentro e fora delas".

"Participar do ENEI em Manaus reforçou ainda mais a certeza de que o movimento estudantil indígena é um espaço fundamental de resistência, aprendizado e construção de futuros. Cada encontro, cada mesa e cada troca reafirmam que não estamos sozinhos e que nossas lutas, apesar de desafiadoras, tornam-se mais fortes quando são vividas em coletivo", conclui Taylane Tupinikim.

Apoio da UFSCar
Desde o primeiro ENEI a UFSCar tem dado suporte à participação de seus estudantes com ações que vão desde o incentivo e apoio na produção de textos para submissão de trabalhos e apoio financeiro para impressão de banners. 

Nesta última edição do ENEI, a submissão exigia o trabalho completo, além do resumo e a exemplo de edições anteriores o apoio se deu desde orientações de formatação e revisões de textos até o apoio financeiro para deslocamentos, alimentação, dentre outras demandas, elenca a Coordenadora de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade.   

Entre os setores que deram apoio nesta edição de 2025 está a SAADE, por meio da Coordenadoria de Relações Étnico-raciais (CoRE), que atuou em articulação com o Sindicato dos Trabalhadores Técnicos-Administrativos da Universidade Federal de São Carlos (SinTUFSCar) e com a Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad), dando auxílio financeiro para custear os gastos com deslocamento e alimentação, além de transporte entre seus campi e o aeroporto. 

Próxima edição
O próximo ENEI, em 2026, está sendo programado para acontecer no estado do Paraná, de acordo com a Coordenadora de Relações Étnico-Raciais da UFSCar. "Embora seja vizinho do estado de São Paulo, é preciso mapear as demandas e prospectar as possibilidades de apoio com antecedência", relata Luzia Costa. "A cada edição, o ENEI ganha mais importância e maior visibilidade. Protagonizado pelos próprios estudantes indígenas, o evento tem se consagrado como o principal espaço de discussão acadêmica sobre temáticas que concernem aos povos indígenas do Brasil".

Mais informações
Saiba mais sobre as atividades do Centro de Culturas Indígenas (CCI) da UFSCar nos perfis do Instagram: @cciufscar e @cciufscarls.